terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Alvarinho Monção e Melgaço já pode ser comercializado sem ano de colheita

Penso que o primeiro a 'desafiar' o que sempre esteve estabelecido foi Paulo Rodrigues, na Quinta do Regueiro. O seu Jurássico juntava colheitas de diferentes anos, mas a Comissão dos Vinhos Verdes, para poder usar a denominação Monção e Melgaço, obrigava a que fosse indicado um ano como referência. Ou seja, se o vinho é feito com lotes de 2019, 2022 e 2023, por exemplo, o produtor teria que escolher um ano (ao calhas?) para por no rótulo.

Finalmente a Comissão cedeu e passou a autorizar, a partir deste mês, que vinhos de Monção e Melgaço possam ser feitos de diversos lotes, sem necessidade de indicar um ano em particular.

A decisão de permitir a comercialização de vinhos sem indicação de colheita (frequentemente chamados de NV ou Non-Vintage) aproxima o Vinho Verde de práticas comuns em regiões como Champagne ou o  Vinho do Porto e traz rigor e verdade aos vinhos loteados.

Portanto, para os produtores é bom, até porque podem por exemplo escoar lotes que tenham em abundância (ou, em anos de fraca produção, manterem-se vivos no mercado) e porque dá mais liberdade aos enólogos para afinar determinado vinho.

Para os consumidores a eventual perda de informação nunca é boa. É o que se passa com alguns espumantes da subregião, que não têm qualquer indicação de data. Resultado: não sabemos se estamos a beber um vinho com dois ou seis anos (na região de Champagne muitos produtores resolvem isso com a indicação do ano do degorgement - o último engarrafamento).

Além disso, para colecionadores ou restaurantes, gerir uma garrafeira sem datas de colheita torna-se mais complexo, exigindo um controlo mais rigoroso de rotação de stocks.

A subregião pediu. Agora vamos ver como a vai utilizar.




sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Vale dos Ares Curtimenta (2021): 7/10

Em 2001 Anselmo Mendes lançou o primeiro curtimenta de alvarinho em Portugal, mais um marco que Anselmo deixa na história do alvarinho e da subregião.

Mas este passo não foi seguido, nomeadamente em Monção e Melgaço, onde, até há pouco tempo, apenas existiam duas referências: Gema e Ag.Hora do Soalheiro, que nem se identifica como tal.

Conheço mais dois, mas fora da subregião, nomeadamente o Adega Belém Curtimenta (que recebeu 8/10, a melhor pontuação entre todos) e o 6000 AC, da Adega de Ponte da Barca, vendido a €50...

Esta escassez diz-nos que os produtores não gostam do resultado da técnica ancestral de contacto com as películas e o engaço (mais o estágio em barrica) e que existirá uma eventual rejeição por parte do público: a curtimenta acentua certos sabores do vinho, uma certa adstringência e a sua acidez final. E há muita gente que não gosta de vinhos com uma acidez final marcante.

Miguel Queimado, o mais consistente de todos os pequenos/médios produtores da subregião, lançou este ano o seu Vale dos Ares Curtimenta, relativo a 2021.

A curtimenta sente-se logo no aroma forte, que já não é fácil de identificar, mas é muito agradável. Fruta madura?

Como seria de esperar a curtimenta releva a adstringência e potencia a acidez final, dando lhe frescura/secura mas também intensidade, que se prolonga depois de bebido o vinho.

[A propósito, grande potencial de guarda].

Gostei, sem dúvida, porque gosto de vinhos com final seco e fresco, mas continuo sem perceber se o alvarinho e a curtimenta funcionam para o público em geral.

Relação preço-qualidade: €25 estão dentro do normal para um vinho de nicho ou até mesmo barato se tivermos em conta que é um vinho de 2021 lançado em 2025 - quantos produtores fazem isso? (Já agora, o preço 'respeita' os cerca de €30 do icónico vinho de Anselmo Mendes...).

Se o preço é razoavel e se gostei, porque não uma nota mais alta? É que, ao contrário da maior parte dos alvarinhos, um curtimenta não é para qualquer comida. Eu bebi-o a acompanhar filetes de pescada e não foi muito agradável - parece que o vinho acentuou demasiado o sabor do peixe e do filete. Ou seja, trata-se de um vinho exigente, que não vai com todas as comidas e que cria uma dificuldade a quem o consome (Miguel Queimado diz que acompanha bem comidas 'de Inverno', mais pesadas, com carne, suponho; irei experimentar).
Ano da produção: 2021
Data de compra: novembro 2025
Local de compra: no produtor
Preço de compra: oferta do produtor (pvp €25)
Data de consumo: dezembro 2025
Produtor: Vale dos Ares
Localidade: Monção
Enólogo: Mguel Queimado e Gabriela Albuquerque
Acidez Total (g/dm ) ?
Açúcares residuais: ?
Teor Alcoólico (%vol): 12º
Método de vinificação, segundo o produtor: "Fermentado integralmente com as películas, em contacto com oxigénio, até terminar. O vinho estagiou durante 24 meses em barricas de castanho e 12 meses em cubas de inox. Antes de ser lançado no mercado estagiou na garrafa durante 12 meses."
Quantidade de garrafas consumidas: 1
Pontuação: 7/10
Primeiro copo servido a: 12º
Acompanhou: filetes de pescada [péssima ligação, como já disse, que foi retificada parcialmente com figos secos na sobremesa]
(499)




domingo, 21 de dezembro de 2025

"No entiendo como un blanco [albariño] de este nivel cuesta menos de 20 euros". Eu também. Mas ainda bem...

 Leitor regular da Esquire, comecei por ouvir falar deste vinho num artigo que se chamava "Este vino Albariño de 95 puntos Parker cuesta solo 16 € y es una ganga".

Pouco depois, outro jornalista da Esquire incluia o vinho na lista de "10 vinos que deberían costar mucho más y que son perfectos para iniciarse en su estilo", dizendo que "no entiendo como un blanco de este nivel cuesta menos de 20 euros."

Ainda em outubro, a Esquire voltava ao ataque: "El albariño de 95 puntos Parker que desconcierta a los expertos en vino por su precio: “No entiendo que un blanco de este nivel cueste menos de 20 €”.

Fiquei curioso. Até porque se fala muito que os alvarinhos de cá são muito baratos, mas afinal também é fácil encontrar bons albariños a menos de €20.

Encomendei (via Decántalo) uma garrafa de Cíes e custou realmente €17.

E o que temos é realmente um vinho notável, muito evoluído, mais mineral do que frutado, a quem atribuíria facilmente 9 em 10 pontos, pela sua qualidade e pelo seu preço. Para orientar os leitores é um vinho (relativamente) próximo do Soalheiro Reserva (pela madeira) e que rivaliza em Portugal com o Regueiro Barricas.

Mas ainda não falei do melhor: a acidez é incrível, longa, apetitosa, a pedir mais. Só comprei uma garrafa...

["Este blanco gallego nace de viñedos muy cuidados, con cepas de entre 30 y 70 años plantadas en suelos graníticos y arenosos que aportan mineralidad y estructura. La fermentación se realiza en depósitos de inoxidable y barricas de 600 y 225 litros, y posteriormente el vino envejece seis meses en barricas muy usadas, un proceso que preserva la frescura y la complejidad sin perder intensidad de fruta. Su producción no llega a las 8.000 botellas"]


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Messala (2013): 9/10

Comecámos mal, eu e a garrafa, quando a rolha se partiu a meio. Pensei imediatamente: 'o que queres, um vinho de 2013! Estavas à espera de quê?"

A rolha acabou por sair e, com pouca fá, nem o abri com antecedência suficiente (ainda para mais, perdi o rasto de como chegou até mim).

Mas não podia estar mais enganado: logo no primeiro contacto foi amor à primeira vista. 

Aroma cheio de fruta madura (manga, mamão ananás) e frutos secos, na boca uma estrutura de sabores secundários bem equilibrada e um final com acidez que se prolonga muitos segundos depois.

Só não é um 10/10 porque o último copo já mostrava um pouco mais de acidez. Como se, ao fim de uma hora, se tivesse transformado, mas especificamente nesse aspeto.

O mais importante: é um colheita que nunca foi pensado para durar tanto.

Ano da produção: 2013
Data de compra: ?
Local de compra: ?
Preço de compra: ?
Data de consumo: dezembro 2025
Produtor: Vinhos Dela
Localidade: "Monção e Melgaço"
Enólogo: ?
Acidez: ?
Quantidade de garrafas consumidas: 1
Pontuação: 9/10
Primeiro copo servido a: 12º
Acompanhou: bacalhau à Gomes de Sá
(23)




segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Pequenos Rebentos (2024): 7/10

Já vamos ao vinho, primeiro queria falar-vos do sítio onde o bebi: um novo restaurante em Melgaço, chamado 5Sentidos, liderado pelo chef Álvaro Costa. Como não podia deixar de ser a ligação ao alvarinho é forte, com uma carta muito completa, onde não faltam aquilo que designam por "Os grandes alvarinhos de Melgaço".


Talvez os preços pudessem ser um pouco mais baixos, sobretudo nos colheitas (ter sempre alguns a €15, como forma de promoção do produto local), mas o único reparo que quero fazer é que, se a casa pede sofisticação, a lista de vinhos deveria acompanhar. Com o quê? Com o ano de produção do vinho.

E foi precisamente por não ter essa informação que acabei por beber o último Pequenos Rebentos (2024), que - sem surpresa - me pareceu muito novo. A acidez e a fruta estão lá (o aroma está bem presente), mas daqui a seis meses estará melhor. Daqui a dois anos nem se fala.

Ano da produção: 2024
Data de compra:
Preço de compra: €19.95
Local de compra: Bebido no Restaurante 5Sentidos, Melgaço
Data de consumo: novembro 2025
Produtor: Márcio Lopes
Localidade: Monção e Melgaço
Enólogo: Márcio Lopes
Acidez Total (g/dm3):
Açúcar residual:
Teor Alcoólico (%vol): 13º
Método de vinificação segundo o produtor: "os cachos foram desengaçados e as uvas sofreram maceração durante 8 horas, precedida de uma prensagem ligeira e decantação de 48 horas. Fermentou a temperatura controlada (18º-23ºC) durante 15 dias. ," segundo o produtor
Aberto quanto tempo antes: 10 minutos
Quantidade de garrafas consumidas: 1
Pontuação: 7/10
Primeiro copo servido a: 10º?
Acompanhou: polvo no forno
Pode acompanhar por exemplo:
(58)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Soalheiro quase nos €12

Desde junho de 2023 que acompanho o esforço da casa Soalheiro para subir o preço do seu alvarinho clássico. 

Nessa altura o pvp recomendado já era €11,5, mas os retalhistas, sobretudo as grandes superfícies resistiam, colocando o vinho a menos de €10.

Voltei a escrever sobre o assunto há um ano e o título era bem explicativo: "O mercado resiste ao aumento do preço do Soalheiro", já que encontrara o vinho, em dezembro, a €9,99.

Passou um ano e mudou muita coisa.

Desde logo, a distribuidora, que agora é a Garcias.

E, sobretudo, mudou o preço.

Uma ronda, feita entre meados de novembro e início deste mês, pelo El Corte Inglés, Auchan e Continente mostra o Soalheiro clássico a €11,99 (no Pingo Doce não encontrei). Já agora, na Garcias, online, está a €11.95, que é um sinal muito claro da afirmação do preço.

Este assunto é, na minha opinião, bastante relevante porque 1) é difícil começar a pagar mais dois euros pelo mesmo produto; 2) porque estamos a falar da marca de alvarinho com mais notoriedade; 3) porque se fala muito em que os alvarinhos da subregião têm um preço muito abaixo da sua qualidade, mas poucos ousam mexer. Este caso pode inspirar outros produtores.

Acredito que este preço tenha vindo para ficar (exceto promoções pontuais, como feiras do vinho). 

Portanto, agora, Soalheiro a menos de €11 euros só no Coca (Monção e também Melgaço)!😇

(esta imagem foi obida no final de novembro)


terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Casa do Cerdedo Reserva (2014): 8/10

Começo por partilhar um 'segredo': Casa do Cerdedo é um daqueles pequenos produtores que. apesar do longo percurso, sempre a fazer vinhos de qualidade, poucos conhecem além-Melgaço. Um percurso consistente, a partir de uma propriedade contígua em Roussas, que Vergara Vaz vem liderando com extraordinária habilidade.

Sobre o vinho: tratando-se de um 2014, o mais indicado teria sido abri-lo meia dúzia de horas antes, pelo menos. Não foi o que fiz, porque não seria isso aconteceria em restaurante. Com menos de uma hora de abertura, revelou-se muito bom, mas ainda algo preso.

Recorri depois a um truque que vi no restaurante G (uma estrela Michelin, em Bragança), o arejador, algo que todos os restaurantes deveriam adoptar, mas que é (ainda não percebi porquê) desprezado: o vinho abriu-se, a boca ficou cheia de fruta, mas já impercetível de identificar. Um 'sumo' extraordinário. O final, de intensidade média, tem a acidez que imagino seria normal um 2014 ter em 2025.

Resultado fnal: simplesmente excelente! 

Ano da produção: 2014
Data de compra: novembro 2025
Local de compra: no produtor
Preço de compra: oferta do produtor (já não está à venda)
Data de consumo: dezembro 2025
Produtor: Casa do Cerdedo
Localidade: Roussas, Melgaço
Enólogo: ?
Acidez Total (g/dm ) ?
Açúcares residuais: ?
Teor Alcoólico (%vol): 13,5º
Método de vinificação, segundo o produtor: "?"
Quantidade de garrafas consumidas: 1
Pontuação: 8/10
Primeiro copo servido a: 13º
Acompanhou: arroz de frango
(498)
(na adega de Roussas, com Manuel Luis Vergara Vaz)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Espumantes de alvarinho, uma espécie de guia compras para as festas (ou não...)

(apenas um guia de compras, tão subjetivo como qualquer outro; único critério: espumantes que sejam relativamente fáceis de encontrar; atenção que uma procura mais cuidada vai revelar preços bem distintos)

O que levar quando vamos a casa de alguém pela primeira vez?🍾

Regueiro Bruto (insisto: é possível encontrar este vinho a preços completamente diferentes, dependendo da garrafeira)

O que levar, se não queremos gastar mais do que 6 euros?🤑

Pingo Doce Bruto

O que levar, se não queremos gastar muito mais do que 15 euros?💶

Muros Antigos Bruto

O que levar, se não queremos Regueiro Bruto outra vez (e sem gastar muito)?🍼

Soalheiro Nature

O que levar a menos de 20 euros?💰

Encostas de Melgaço Bruto

E algo entre os 20 e os 30 euros?💰💰

Dom Ponciano Extra-Bruto

É uma prenda de anos, temos de caprichar...🎂🥳

Côto de Mamoelas Assemblage Super Reserva




segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Produtores/enólogos da sub-região provaram o primeiro albariño sem álcool. E disseram de sua justiça...

Havia uma surpresa guardada e completamente inesperada para diversos produtores/enólogos presentes na Feira do Espumante que hoje termina em Melgaço: levei uma garrafa do primeiro alvarinho, feito nas Rias Baixas, sem álcool (o Marieta Sin).
Em prova cega, foram convidados a provar e a deixar uma ou duas frases.
Abel Codesso (Anselmo Mendes, além de outros projetos) tirou a pinta rapidamente, dizendo que "parece água", mas reconheceu "uma acidez brutal". No final reconheceu que se "bebe bem" e que "pelo nariz, não diria que é sem álcool".
João Garrido (Quinta das Pereirinhas, mas não só) relevou a acidez e o muito baixo teor alcoólico, percebendo que seria mais "um sumo de uva".
Paulo Rodrigues (Quinta do Regueiro) mostrou-se "surpreendido" e classificou a experiência como "interessante".
Artur Meleiro (Valados de Melgaço) também não escondeu a surpresa. "Parece um refresco, leve". "Sabe a vinho, mas muito diluido", disse, acrescentando o adjetivo "agradável".
Finalmente Miguel Queimado (Vale dos Ares, contactado na sua adega) destacou o que lhe pareceu ser "demasiado açúcar", quase "enjoativo", mas, como todos os outros, reconheceu que seja porque vai ao encontro de um público jovem (que não bebe vinho), seja porque ajuda a equilibrar os alertas da OMS contra o consumo de vinho, pode ser uma alternativa válida. Até porque, como disse Queimado, "dá destino a uvas" que, de outra forma, poderiam não ter escoamento.
 





Arroz de cabidela - vai um Alvarinho?

Muito mudou, no consumo do vinho Verde e do Alvarinho em particular, desde que se dizia que estes eram vinhos para um fim de tarde ao sol ou...

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